Volume com todos os poemas de Raul Bopp ganha nova edição revista e ampliada

Por Moacir Amâncio
ESTADO DE SÃO PAULO

Em obra organizada por Augusto Massi, o poeta e diplomata modernista está à espera de um olho sensível e livre

A obra do poeta gaúcho Raul Bopp (1898-1984) aparece resgatada na Poesia Completa (José Olympio), organizada por Augusto Massi, num excelente trabalho de recuperação dos textos dispersos, notas e fortuna crítica produzida por alguns dos grandes nomes literários do chamado modernismo brasileiro, como Oswald de Andrade, Murilo Mendes, Augusto Meyer, Sérgio Buarque de Holanda e Drummond, para terminar com José Paulo Paes e Antonio Hohfeldt. Textos já desconhecidos do Bopp iniciante e mesmo após a publicação de Cobra Norato, livro-poema emblemático, em 1931, aparecem catalogados e analisados, abrindo aos leitores a possibilidade de conhecer a trajetória de um poeta que se queixava da pouca repercussão de seus livros, dessas injustiças que só o tempo, às vezes, repara, como é o caso. Algo que deve ser notado com entusiasmo é que o livro sai em segunda edição.

Assim o leitor especializado tem novamente à disposição uma obra em suas variantes e momentos evolutivos, mais comentários da época, insubstituíveis, pois corretos ou equivocados configuram a reação do momento, contaminada e por isso mesmo fundamental para um exame em profundidade hoje realizado quase exclusivamente nas faculdades de Letras. Apesar disso, um volume como este sempre coloca uma pergunta complicada: como reagiria ao conjunto desses poemas o leitor especializado ou não (isto é, a figura descompromissada profissionalmente e que se entrega à leitura pela leitura, algo talvez já inexistente, ou quase, quando se fala em poesia, pelo menos)? Mas se esse leitor não existe mais, então caberia ao leitor profissional tirar a armadura e os instrumentos de análise para se deixar levar pelos poemas deixados pelo Bopp, diplomata desencantado dos azares da literatura.

De que modo encarar os primeiros ensaios do autor, sonetos discutíveis – o próprio poeta torce o nariz para eles. Ora, esse leitor descompromissado pode muito bem se dar ao luxo de deixar de lado aqueles textos e ficar com a magia deCobra Norato, a negritude de Urucungo, as notas jornalístico-poéticas deReportagens, onde o escritor, viajante nato (o instinto viageiro motiva poemas e está na estrutura de sua obra-prima, sobre alguém que veste a roupa da Cobra Norato e sai em busca da filha da rainha Luzia pelo Amazonas, numa disputa com a Cobra Grande), desbrava de automóvel os possíveis caminhos que ligariam São Paulo a Curitiba. Textos como esses constituem o melhor da produção do poeta que saiu do Rio Grande do Sul para conhecer o mundo brasileiro na vertical e na horizontal, explorando suas veias ocultas ou visíveis, à espera de um olho sensível e livre. Quem não conhece esses poemas vai se surpreender, quem conhece reconfirmará a força poética do escritor gaúcho, que permanece intensa e desafiadora.

O desigual no conjunto fica por conta do esforço necessário no sentido de reconstituir a imagem o mais integral possível do poeta, que se vivo não teria assim tanta razão para reclamar de invasão da sua privacidade, até pelo simples fato de que o acervo das publicações de um autor pertencem de direito ao ambiente que o gerou, é direito público, além de superstições e convenções. E é bom lembrar, trata-se de um poeta que meio virou lenda. De repente passava uma geração sem possibilidade de maior acesso aos seus poemas. Mas agora, com a segunda edição da Poesia Completa, um clássico modernista deve ocupar seu espaço definitivo e de corpo inteiro entre os leitores armados e desarmados. Nos melhores momentos os poemas, mesmo relidos várias vezes anos afora, fascinam como na primeira leitura, como algo paralelo à busca de um universo inaugural de árvores inchadas e jacarés que mastigam estrelas no rio, um universo mítico habitado por um Adão e uma Eva fantasmáticos a cruzar o que restou de troco do Éden, no caso uma Amazônia cuja realidade nos escapa cada vez mais.

MOACIR AMÂNCIO É PROFESSOR DE LITERATURA HEBRAICA DA USP E AUTOR DE ATA (POEMAS)

POESIA COMPLETA DE RAUL BOPP

Org.: Augusto Massi

Editora: José Olympio (392 págs., R$ 45)

 

Maria Amélia Mello – Editora e escritora

Quando conheci Raul Bopp, ele já vivia afastado de qualquer rodinha literária, não gostava muito das chamadas “honras naturais do ofício”. Para ser mais precisa, ainda aparecia – quase uma surpresa – nas tardes do Sabadoyle. “Era um encontro de amigos, aos sábados, na casa de Plínio Doyle. Uma reunião bastante informal, sem compromisso”, dizia. Aliás, o nome da confraria foi batizado pelo autor de Cobra Norato. E pegou, fez história, virou livro.

Em maio de 1978, quando o entrevistei em sua residência, um apartamento de último andar, na Praia de Botafogo, com uma belíssima vista do terraço, o poeta estava em apuros. Os próximos dias prometiam muita movimentação para aquele pacato senhor, de voz quase silenciosa e olhar discreto. A data reunia dois fatos marcantes: um para a nossa história literária e o outro para a vida dele em particular. Eu tinha vinte e poucos anos, ainda cursava Jornalismo na PUC e recebi como desafio a tarefa de entrevistá-lo. Mal sabia que a pauta sugerida pelo Elysio Condé, diretor do Jornal de Letras, seria mesmo um presente duradouro.

Apesar da diferença de idade – Bopp estava às vésperas dos 80 anos – nos tornamos amigos logo de saída. Por volta das quatro da tarde, estacionava meu fusquinha em frente ao prédio e, dali em diante, recebia aulas de literatura, ao vivo. Passei muitos sábados ao lado dele (e de Dona Lupe, sua mulher), ouvindo suas lembranças, bebendo em fonte cristalina, passando em revista a trajetória da Semana de 22 e o movimento da Antropofagia. A verdade é que ele já estava debilitado, falava bem baixinho e me deixou gravar boa parte de nossas conversas. Estava lúcido, fazia planos de um novo livro e gostava de me contar o vai e vem dos modernistas. E eu de ouvir as saborosas histórias, narradas com detalhes.

Certa vez, com muita verve, me falou como nasceu, num jantar, o movimento da Antropofagia. A especialidade da casa: rãs. Oswald de Andrade se levantou e começou a desfilar as qualidades das rãs. Após tantos elogios, Tarsila do Amaral disparou: “Com esse argumento, chega-se teoricamente à conclusão de que estamos sendo agora uns….quase-antropófagos.” A blague tomou corpo. E alguém arrematou: “Lá vem a nossa comida pulando!” Logo depois, o mesmo grupo do restaurante participou do batismo de um quadro pintado por Tarsila, Antropófago. Estas – e muitas outras – histórias você pode ler no delicioso livro Vida e Morte da Antropofagia, de Raul Bopp, relançado em 2006, pela José Olympio.

Quando perguntei ao poeta sobre o término do modernismo, mergulhou em silêncio, para comentar em seguida: “Foi um changé des dames”. Pode parecer engraçado, mas me disse isso com expressão séria, sem alterar o tom da voz.

Se a primeira agitação estava ligada aos acontecimentos poéticos da década de 1920 e que marcaram bastante nossos rumos, com a celebração dos 50 anos da Revista de Antropofagia, cujo número 1 saía exatamente em maio de 1928, a segunda, que chegaria em 4 de agosto, seu aniversário, provocava um sorriso disfarçado, bem ao seu jeito, apertando os olhos. Raul Bopp era avesso aos holofotes da fama. E ele mereceria todos.

Embora tendo uma obra poética relativamente pequena em quantidade, escreveu alguns dos mais belos poemas de nossa língua, demonstrando fina sensibilidade e espírito criador. Um de seus livros, o clássico Cobra Norato, de raízes folclóricas, que saiu em 1931, continua a ser editado e lido pelas novas gerações. Assim se referiu Carlos Drummond: “É possivelmente o mais brasileiro de todos os poemas brasileiros, escritos em qualquer tempo”.

Como ele mesmo contou: “Esbocei o poema em 1921, quando ainda estava na Amazônia. Depois, parti para São Paulo com os originais guardados numa mala. Somente em 1927, quando acolhido por Oswald e Tarsila, resolvi retocar um ou outro verso. O poema andou de mão em mão, ainda datilografado, agradando aos companheiros”.

Gaúcho de Santa Maria, com menos de um ano foi levado para Tupanciretã (nome que significa “terra da mãe de Deus”), na fronteira. Mas, cedo resolveu correr mundo – “havia muita coisa para se descobrir.” O crítico Mário da Silva Brito escreveu: “Nômade, andarilho desde jovem, nunca se sabe onde ele está”. Da fronteira seguiu a cavalo até o Paraguai. Depois Mato Grosso e, um pouco mais velho, já na Faculdade de Direito, andou de Porto Alegre até Recife. De Belém ao Rio de Janeiro. Por estes caminhos, exerceu as mais diferentes e surpreendentes profissões: de jornalista a pintor de paredes; de professor primário a Secretário do Conselho Federal do Comércio Exterior e, por fim, diplomata.

Não se pode negar, levou uma vida e tanto. No Mar de Mármara, por exemplo, tentou entrevistar Trotski, que acabou não o recebendo, alegando sua posição de asilado político na Turquia. No Japão, sem explicação lógica, foi convidado para um jantar que, entre os presentes, estava uma das figuras mais importantes da nação – Toyama, chefe da seita do Dragão Negro. Fez questão de pisar no deserto de Gobi, pois “ali estava a verdadeira África, autêntica, resignada e esquecida.” Mas não cansava de afirmar que de todas estas aventuras, “a maior volta ao mundo que eu dei foi na Amazônia. Pode-se, inclusive, dividir minha poesia em duas fases, a pré e a pós-amazônica”. Aposentou-se como Embaixador, em 1966. Publicou suas memórias, lançou o volume Urucungo, poemas negros, poemas com a cara, o cheiro, o ritmo do Brasil. Ele era realmente moderno. E ainda é.

Há 30 anos, em junho de 1984, morria Raul Bopp. Sua poesia andou um tanto esquecida, injustamente. Disse um filósofo francês: “Os fatos antecedem os acontecimentos”. Pura sentença, no meu caso. Deixei para trás o jornalismo e me dediquei ao mercado editorial. Muita coisa saiu de cartaz, desde então. Mas, ainda guardo na lembrança as nossas tardes claras em Botafogo, sentados num sofá, de costas para a paisagem. Ele sempre me pedia para fechar a porta da varanda, evitando o vento que soprava da Baía de Guanabara, quando a noite dava seus primeiros sinais.

Mal podia imaginar que aqueles nossos encontros, décadas atrás, pavimentariam esta nossa viagem. Sou editora de Raul Bopp, de toda a sua obra. Raul Bopp continua em cartaz.

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