Votar, verbo transitivo

Ilustração: Libby Vanderploeg

Quem vota, vota em alguém ou em algo. O sentido desse verbo transita, isto é, segue adiante, integrando-se ao complemento. Lição de gramática do mestre Evanildo Bechara. E em se tratando de argumento melhor que se use o dele, professor emérito e grande conhecedor das normas da Língua Portuguesa.

Porque norma é norma, pura tautologia, se bem que ajuda para atender essa questão de normatividade. Em outras palavras, tudo que se diz assim e não de outra maneira é regra. Essa contém tudo que na língua é funcional, tradicional e constante.

Vejamos o jargão do comentarista futebolístico: “a regra é clara…” E como as regras são construções históricas de uma determinada comunidade melhor que tentemos compreendê-las. Se bem que há explicações incabíveis, no entanto, se vai entendendo, ou melhor, “macaqueando” a sintaxe como verseja Bandeira.

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E é por esse motivo que se vai à escola, para se aprender a Língua Portuguesa normativa. Porque da vida todos já temos lição. Voltemos ao verbo.

Todo verbo transitivo necessita de um completo. Eu vou votar em Clarissa Pinkola Estés, a grande escritora de “Mulheres que correm com os lobos”. Eu vou votar em Conceição Evaristo, pelo mérito do romance Ponciá Vivêncio.

Essas monossílabas invariáveis fazem diferença significativa no universo frasal. Basta que se leia a sentença omitindo-as para que se reconheça o estranhamento. Elas mantém o elo. A ligadura. As amarras. Fora dos contextos enunciativos são vazias de sentido: “em”.

Desmatar o Amazonas da ignorância

No poema “Aula de português”, Carlos Drummond de Andrade fala em dois ‘português’: os estudos  de  Gramática e  o  uso do  dia a dia, a língua falada nas ruas e a normatizada ensinada na escola. 

A palavra preposição tem origem no latim “praepositione” e significa o ato de prepor. Como o próprio nome indica a preposição vem antes, ocupa uma posição anterior.

Na verdade, a preposição estabelece a relação entre dois termos, subordinando o segundo ao primeiro. O primeiro termo rege a preposição; daí falarmos em regência (ou regime) de verbos.

Pois é, a gramática “desmata o amazonas da ignorância” como salienta Drummond no poema Aula de Português.

Votar é de lei. Está dito na Constituição da República Federativa do Brasil – capítulo IV – Dos Direitos Políticos – § 1º O alistamento eleitoral e o voto são: I – obrigatórios para os maiores de 18 anos… portanto, se está na lei, “a regra é clara.” Deixou de votar. Penalidade máxima. “Duralex Sed Lex” – “A lei é dura mais é a lei.”

A via da realização de uma ação é puramente interior e a continuidade dessa via também é puramente interior. Daí que toda a ação passa pelo corpo e dele faz parte. Votar é uma ação que se assimilou no corpo, tal qual está assimilada na língua. Então é visceral.

Pouco se pensa no trajeto da ação de votar, é que tudo já está na consciência e estando na consciência corporificado está. O hábito imprime impulsos. Seria preciso deter a ação e dar-lhe outro rumo.

A língua anda e uma relação coadunar com a lei: votar é um direito arbitrário. “Eu voto”. Mas como se pode reinventar os arranjos com a linguagem. Eu invento palavras para traduzir a ternura mais funda e cotidiana. Inventei, por exemplo, o verbo “votaintransitivo”. “Há idiomas de lavras incendiadas.”

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