Vovô racista

Os óculos eram assustadoramente enormes. Lentes sobre lentes, lunetas. Faziam com que seus olhos ficassem distorcidos e enigmáticos. Deu-me as primeiras lições de letras. “Porque no homem o saber vem primeiro, depois a liberdade. Ninguém pode com quem ler.”

Eu não compreendia como podia ser interessante um livro sem figuras. “O que você está lendo, vovô?”. “Depois eu falo”. E era sempre para depois.

A brincadeira preferida nas reuniões familiares era cantar uma palavra que ele não soubesse o significado. Como poderia memorizar tantos sentidos? Ele sempre sabia.

Andava ereto. Camisa branca e calças de linho. As mãos finas como filetes de páginas. Podia se ver as veias azuladas saltarem da pele.

O contraste entre nossas mãos se deu pela manhã, enquanto ele segurava um litro de uísque preste a se espatifar. Macallan 55 Year Old Lalique Crystal Decanter falsificado. Assim ficaram os cacos do meu coração ao ouvir, num esbravejar, “Quem é esta negra?”, “Quem é esta preta retinta?”.

Olhei por sobre os ombros aguardando que uma voz muda pudesse responder. “Quem é você, sua negra?” Fui puxada aos solavancos por uma tia nórdica, altiva, transparente. Sussurrou: “Seu avô e racista. Racista, minha filha!” Fiquei no escuro.

Um dia antes, vovó lavava as redes dele com sabão e alvejante. Depois, deitava aquela imensa lona branca sobre a grama. O cheiro de limpeza impregnava as unhas.  Os braços vergavam até que conseguíssemos colocar para secar. “Mais tarde passo o ferro”. Ele gosta sem nenhuma ruguinha. Branca e lisa. Tudo claro.

Entro na sala da repartição do trabalho. Acaricio o esmalte frio e aveludado.  A colega da mesa ao lado aponta para os meus dedos e meneia a cabeça como uma víbora preste a dar o bote. “Não combina com o seu tom de pele.”

Olho por cima dos óculos. Minhas lentes são polidas. Soletro um significado oculto para ela. “lápis-lazúli.” As unhas dela estão nuas.

De volta para casa, em um pulsar de todas as veias abertas, ouço sincronizada. Ain’t Got No/ I Got Life – “Tenho meu cabelo, tenha minha cabeça/ Tenho meu cérebro, tenho minhas orelhas/ Tenho meus olhos, tenho meu nariz/ Tenho minha boca/ Eu tenho o meu sorriso…

“Eu tenho vida.” Suspiro e sussurro – bendito uísque!

Comentários

There is 1 comment for this article
  1. Andreia R M Mendes 7 de janeiro de 2021 12:13

    Quanta coragem em descortinar aquilo que guardamos tão secretamente. Excelente crônica e grande lição. Não podemos nos curvar ao racismo.
    Parabéns Ana Catarina. Sua escrita nos provoca a olhar por dentro.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

ao topo