Vozes que não se deixam morrer

Francisco Foot Hardman (*)
Estadão

Nos antigos porões da repressão argentina, hoje espaços de memória, desaparecidos insistem em voltar

Quando pensamos na história de Francisco Madariaga Quintela, bebê sequestrado por militares argentinos durante a ditadura naquele país, o 101º identificado entre os prováveis 500 ainda por serem, graças ao trabalho das Avós da Praça de Maio; Francisco, que acabou de conhecer seu pai 32 anos depois de ter nascido (a mãe foi morta logo após o parto, como em geral ocorria com as prisioneiras grávidas no centro clandestino de detenção e extermínio do Campo de Mayo, controlado pelo Exército), persiste a dúvida: o que é mais fácil de esquecer, um rosto ou um nome?

Julio Cortázar, num esboço de conto alegórico que publicou na Revista del Occidente, em 1981, narra o projeto de “um grupo de argentinos” de fundar uma cidade numa planície propícia, sem se dar conta de que ali era um cemitério do qual não restava “nenhum rastro visível”. Somente os chefes o sabiam, mas se calaram porque “o lugar facilita seus projetos”, já que é “uma planície alisada pela morte e pelo silêncio”. Mas, aos poucos, “os mais sensíveis” começam a perceber coisas estranhas, que estão a rigor assentados “sobre a morte” e os mortos “sabem voltar à sua maneira”; e aquela cidade projetada aos poucos desperta “do pior dos pesadelos, na fria e viscosa presença de repulsas invisíveis, de uma maldição que não se expressa com palavras, mas que faz tinir com seu indizível horror tudo o que esses homens ergueram sobre uma necrópole”. Indagado por que não desenvolvera o conto, o escritor, falecido em 1984, disse que não o fizera porque “já estava escrito no livro da história”.

O Parque da Memória – Monumento às Vítimas do Terrorismo de Estado, fundado em 2007 às margens do Rio da Prata, numa das pontas da baía em plena Costanera Norte, em Buenos Aires, parece representar, como antimuseu, ao revés, esse argumento da narrativa de Cortázar. Está assentado numa verdadeira “planície alisada pela morte e pelo silêncio”. A cidade ainda resiste a incorporá-lo a sua geografia cultural e histórica. E ali, numa tarde chuvosa, céu gris, muita ventania, encrespadas as águas do Prata, visitei sozinho aquele lugar, recebido na porta por um cão enorme, mas amistoso, e nos trailers ao fundo por um guarda sonolento e pela artista plástica Lucila Anigstein, filha de perseguidos da ditadura, como muitos dos que trabalham, voluntariamente ou como funcionários, nesses vários espaços da memória do terror argentino.

Como sempre, faltam recursos e o apoio oficial é precário. Mas o voluntarismo dos comitês “de consenso” que dirigem efetivamente esses centros supera, em muito, as dificuldades materiais. Afora 6 esculturas já instaladas (de um total de 18 previstas, vencedoras de concurso internacional que contou com 665 projetos de 44 países), sobressaem, na escalada suave de uma colina, as quatro enormes esteiras de granito do principal monumento, como feridas na relva, “forradas” atrás de lascas de pedras e gravadas nas suas frontes de centenas de metros, com os nomes de quase 10 mil mortos e detidos-desaparecidos. São registros que remontam da ditadura de Onganía, em 1969, até o fim da ditadura Galtieri, em 1983. Ao lado de cada inscrição, em ordem alfabética de sobrenomes e listados por ano de massacre, há apenas a idade da vítima. É um passeio doloroso, mas necessário. Quando chegamos aos anos 1976, 77 e 78, parece que paramos no tempo porque a lista se mostra infinda. Bastaria conferir essas marcas para dar completa razão ao jovem juiz Daniel Rafecas, que acaba de responsabilizar penalmente o general Videla por 30 homicídios, 552 sequestros e 264 casos de tortura. Numa entrevista ao jornal La Nación, feita em Paris, onde estava participando de seminário sobre genocídio, o juiz Rafecas afirmou ter plena convicção de que o presidente da primeira junta militar instalou, de fato, a “solução final” como estratégia de combate não só aos movimentos guerrilheiros, mas a qualquer outra dissidência política da sociedade civil, pouco importando se desarmada ou se capaz de se opor ao regime de exceção. E quando meu olhar passou a se fixar não mais nos nomes (sem rosto), mas nos numerais que indicam as idades, não há como negar a avaliação de Rafecas: a casa dos 20 se repete a exaurir nervos, toda uma geração de jovens comuns, sonhadores, ingênuos, utópicos, agressivos, criativos, eróticos, libertários, estúpidos, enfáticos, desapareceu.

Se chamássemos por seus nomes, apenas o sibilo do vento forte do Atlântico Sul responderia. E as pedras, como em Treblinka, seriam suas mais íntegras e praticamente únicas testemunhas. Já que as águas em grande parte os tragaram, nos “traslados para cima”, isto é, voos da morte saídos com regularidade diabólica durante mais de dois anos todas as quartas-feiras da Esma (Escola Superior de Mecânica da Marinha). Como disse a esposa de um empresário ligado aos negócios clandestinos dos militares, por volta de 1995, depois do tremendo impacto que a confissão do capitão de corveta Adolfo Francisco Scilingo, primeira de um perpetrador, veio à luz no impressionante livro do jornalista Horacio Verbitsky, El vuelo (O voo): “Porque há um problema na sociedade. Parecia que os desaparecidos são eles, não são nós. São nossos, somos nós”.

Nos desvãos entre memória e esquecimento reescreve-se a história contemporânea da Argentina, que numa dimensão extrema, reproduz processos tão conhecidos na América Latina, em países como o Brasil, Chile, Uruguai, Paraguai, Bolívia, Peru, Colômbia, para não falar de massacres na Guatemala, El Salvador, México. E para não falar dos crimes contra os direitos humanos continuados em Cuba, para os quais nem a epopeia da Sierra Maestra nem o deplorável bloqueio norte-americano poderão oferecer licença ideológica ou poética que justifique tanta indiferença e omissão.

Entre os projetos escultóricos do Parque da Memória ainda por construir está o do artista brasileiro Nuno Ramos, Olimpo, grande estrutura de vidro e granito inspirada na arquitetura labiríntica e claustrofóbica de vários centros clandestinos de detenção e extermínio, entre eles a velha estação terminal de bondes, depois de trólebus e ônibus, no pacato bairro operário e de classe média baixa Floresta, em Buenos Aires, tema do filme Garagem Olimpo, do cineasta ítalo-chileno Marco Bechis, em 1999. Pretendendo inverter os usos costumeiros dos materiais (o vidro para paredes, soalho, teto, e o granito para portas e janelas), a obra pensada por Nuno sugere uma suspensão do tempo, numa analogia inversa à dos algozes do Exército que dominaram aquele cenário entre o final de 1978 e início de 79 (“Olimpo” é a denominação tenebrosamente irônica que deram ao local, na autorreferência elogiosa à sua condição de deuses da vida e da morte). Na visita que fiz, impressionou-me a disposição de todos que lá trabalham – jovens antropólogos, arqueólogos, teatrólogos, bibliotecários, arte-educadores, sobreviventes voluntários – para integrar o espaço da memória à vida das comunidades do bairro, com uma programação de eventos culturais e educativos intensa e viva. A própria geografia do bairro assim o faculta, ao contrário de outros centros relativamente mais isolados. No cronograma, anualmente, organiza-se uma passeata de cerca de um quilômetro entre Olimpo e a antiga oficina mecânica Automotores Orletti, no mesmo bairro, maior centro de detenção da famigerada Operação Condor, para onde foram levados cerca de 300 sequestrados do Cone Sul, dos quais apenas cerca de 40 sobreviveram.

Denúncias e recuperações desses vários centros do terror de Estado como novos espaços públicos da memória não foram fácies. Entre os instrumentos, as associações de direitos humanos que se mobilizaram em torno valeram-se do escrache, que são atos públicos bem humorados em que se revelam identidades de torturadores ou o destino clandestino de lugares como esses durante a ditadura. Os escraches, em geral levados adiante pelos grupos de filhos dos desaparecidos, foram bastante eficazes ao produzirem incômodo aos que pretendem tudo esconder e indignação de moradores vizinhos. Ao mesmo tempo que simpatia difusa pelas boas causas da memória.

Do alto de sua arrogância, o almirante Massera, comandante da Marinha e membro ativo da primeira junta durante os anos de terror da Esma, condenado à prisão perpétua, disse em audiência num de seus vários processos criminais, em 1985: “Me sinto responsável, porém não culpável. Meus juízes dispõem da crônica, mas eu disponho da história e é dela que se escutará o veredicto final”.

No silêncio de hoje dos porões e sótãos do Cassino dos Oficiais, a maior casa de horrores da Esma, por onde passaram milhares de sequestrados, ali torturados, despojados de seus bens – as mães grávidas de seus bebês – e selecionados, olimpicamente, com o L de liberdade (poucos) ou o M dos voos da morte (a esmagadora maioria), durante vários anos, de modo metódico e implacável pelo alto comando das Forças Armadas, as vozes dos desaparecidos teimam em não se deixar esquecer. E pelo menos uma centena de fotos ainda trazem seus rostos, desfigurados por seus carrascos. A história, sim, já escreveu os contornos dessa planície alisada pela morte. E as vozes voltam, o vento na cara, os restos de memória que o rio e o mar não souberam destruir. E voltam nomes e voltam rostos. É sempre possível fazer de cada crônica uma outra história. Do que você se lembra primeiro?…

(*) Professor de Teoria e História Literária da Unicamp. Autor, entre outros títulos, de Euclides da Cunha – Poesia Reunida (Unesp, 2009)

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