Vozes veladas, veludosos desvelos

A lenda européia da Melusina conta a história de uma mulher que casou após obter a promessa de que seu marido nunca a veria tomar banho. Um dia, vencido pela curiosidade, ele quebrou a promessa, perdendo sua esposa para sempre. Em uma variação, ele a vê em forma de uma serpente luminosa que o cega imediatamente. Em outra versão, a moça transforma-se em dragão e sai voando.

A mitologia grega trás o mito de Psiquê, a alma, que perde o seu marido Eros, o amor, por não resistir à vontade de vê-lo, quando prometera nunca tentar conhecer a verdadeira identidade daquele que sempre a amava no escuro. Com a curiosidade espicaçada por suas irmãs, invejosas da felicidade de Psiquê, ela esperou o marido dormir e acendeu uma lâmpada para enxergá-lo. Imaginava encontrar um monstro terrível, como suas irmãs haviam previsto, mas ficou tão encantada com a beleza do amor que acabou por acordá-lo, acordando também a sua raiva pela perda da confiança nela. Para recuperar o marido, a alma teve de aprender a duras penas a importância da confiança no companheiro de vida. Ainda bem que essa história do amor e da alma tem um final feliz: o nascimento do filho Voluptas, o prazer.

Também da mitologia grega vem a história de Orpheu. Sua noiva, Eurídice, a quem muito amava, foi morta por uma serpente e desceu ao reino dos mortos. Orpheu, que ganhara dos deuses o dom de encantar com seu canto e com o toque de sua lira, mesmo vivente embrenhou-se por aquele lugar de almas sem carne, rogando ao deus dos mortos que lhe devolvesse Eurídice. O deus concordou, disse que Eurídice iria atrás dele, mas o fez prometer que não se voltaria para vê-la até que os dois tivessem transposto os limites daquele reino. Sem resistir a olhar Eurídice de novo, Orpheu quebrou a promessa e Eurídice, que não havia ainda recuperado a matéria, desvaneceu-se diante dos seus olhos.

Uma parte de cada um permanece oculta até para si mesmo. Como então alguma criatura poderia ser perfeita e completamente transparente para outra criatura, ainda que entre elas haja um vínculo profundo, visceral? Não há, oh gente, oh não. Compreender (mais que tão-somente aceitar) a natureza insondável desses segredos, desses lados que devem permanecer apenas imaginados, faz parte do respeito ao outro. E quando não há respeito, a relação tem o mesmo destino de Eurídice: desvanece.

Alguns segredos não serão jamais desvelados. Algumas das nossas vozes permanecerão em silêncio, porque algumas vozes são nascidas para o silêncio e isso não é um paradoxo, é uma confirmação da necessidade que os opostos têm um do outro. Talvez sejam exatamente esses veludosos segredos que manterão acesa a chama da fascinação e do encanto de um ser pelo outro. Afinal, meu Rimbaud, se o eu é um outro, o outro é um outro mais ainda, e algo dele, por ínfimo que seja, permanecerá encoberto aos meus olhos. Nem pense que isso me descontenta. Há tanta volúpia em desvelar o possível, quanta volúpia há em conviver com insondáveis segredos veludosos.

Poeta e cronista. Publicou os livros de poesia O Caos no Corpo, Destempo, e Chuva Ácida, e Uma noite entre mil, textos em prosa. [ Ver todos os artigos ]

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