Wagner em terras tropicais

Por João Luiz Sampaio
NO ESTADO DE SÃO PAULO

A história começa em março de 1857, quando o compositor Richard Wagner recebe uma visita inesperada em Zurique. Vindo de Leipzig, o embaixador brasileiro o procura em nome de sua majestade d. Pedro II. O monarca está interessado em levar o alemão ao Rio, oferecendo a cidade como palco da estreia de sua nova ópera. Não se sabe ao certo a razão, mas a parceria não seria levada adiante. Ainda assim, desde então o Brasil se mistura à biografia do compositor. E, no ano de seu bicentenário, teatros brasileiros celebram em suas programações a obra do compositor que, com sua proposta de obra de arte total, não apenas redefiniu a história da ópera como ainda influencia criadores das mais diversas áreas.

Na semana passada, A Valquíria, segunda parte do ciclo O Anel do Nibelungo, foi encenada no Teatro Municipal do Rio. É a mesma produção, com elenco parcialmente distinto, estreada em 2011 no Municipal de São Paulo, palco onde, em setembro, será apresentada O Ouro do Reno, primeira parte do Anel. Da mesma Valquíria, também na semana passada, a Filarmônica de Minas Gerais interpretou, em versão de concerto, o primeiro ato. E, em agosto, o Festival do Theatro da Paz, em Belém, estreia uma nova produção de O Navio Fantasma. À lista, soma-se Parsifal, apresentado em abril no Festival Amazonas de Ópera.

A produção de Manaus é o ponto de chegada de um resgate das obras do compositor iniciado na cidade, em 2002, com uma versão do Anel, à qual se seguiram O Navio Fantasma e Tristão e Isolda. Por trás delas, o maestro Luiz Fernando Malheiro, que também assina a direção musical do Anel do Municipal de São Paulo e regeu a Valquíria apresentada na semana passada no Rio.

O Anel de Manaus foi a primeira produção feita inteiramente no Brasil da obra (nos anos 20, foi uma companhia alemã a responsável por sua interpretação no Municipal do Rio). Foi, assim, o primeiro Anel brasileiro – alcunha que o diretor André Heller-Lopes reivindica para a versão da obra que realiza no Municipal de São Paulo. Mas o “brasileiro” aqui se refere menos ao local de produção e mais ao caráter da montagem. Para o diretor, o Anel, com seus deuses e mitologias, trata essencialmente “das relações humanas, da relação do homem com Deus, do homem com o poder”. “E na saga da queda dos deuses, do surgimento de uma nova raça livre, está também a discussão da nossa identidade cultural em um momento de transformação pelo qual passa o Brasil.”

O Anel de São Paulo está sendo encenado fora da ordem. Em 2011, subiu ao palco a Valquíria, segunda parte do ciclo; em 2012, O Crepúsculo dos Deuses, a quarta e última parte; agora, chega O Ouro do Reno, primeira das óperas da tetralogia. Ao longo do ciclo, o diretor tem proposto um diálogo de Wagner com elementos da cultura brasileira, compreendida de maneira ampla. “Estamos acostumados a tratar como brasileiro apenas aquilo que é folclórico, mas isso é redutor. Nós somos africanos, folclóricos, imigrantes, religiosos. E é a convivência da diferença que cria o momento especial que o País vive. Na nossa vida cultural, cabem diversas manifestações – e a ópera é uma delas”, explica.

Ao longo da produção, o diretor enxerga uma decantação das ideias, “que é parte do processo de crescimento de todo artista”. Fica, no entanto, cada vez mais claro que seu Anel brasileiro segue na direção certa. “Retornar agora à Valquíria, com um elenco tão diferente, levantou novas questões e ideias. Persigo o ideal de Wagner de buscar algo novo. Não havia sentido em fazer apenas outro Anel, com capacete de chifre, tranças louras e peles de urso. Não interessava uma versão tecnológica ou com o sabor da vanguarda dos anos 80. Gosto de pensar que sou um diretor clássico com um twist. Não há nada mais tolo do que ser respeitoso, como se a ópera fosse uma peça de museu a ser manipulada com luvas”, diz. “Eu prefiro o respeito que tenho pelas coisas vivas.” As mesmas ideias poderão ser encontradas em O Ouro do Reno. Mas Siegfried, previsto para 2014, foi adiado pelo novo diretor do Municipal, o maestro John Neschling. E, no ano do bicentenário de Wagner, não há mais previsão de conclusão para a primeira montagem do Anel realizada no teatro.

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