Walter Moreira Santos, um ilustre escritor

Você pode não ter ouvido falar nele, mas o mundo literário o conhece muito bem. Walter Moreira Santos não é apenas um dos maiores escritores contemporâneos do Brasil, mas também um escritor moderno que vende os seus livros, não a sua imagem. Pernambucano de Vitória de Santo Antão, está no mercado literário há 13 anos e foi um dos escritores que mais ganhou prêmios literários no País, dentre eles: Casa de Cultura Mário Quintana; Xerox do Brasil, Itaú Cultural, Fundação Cultural da Bahia, Prêmio Cidade do Recife, Prêmio José Mindlin de Literatura e acaba de ganhar o Prêmio Pernambuco de Literatura com seu primeiro livro de contos: O metal de que somos feitos. Seus livros mais conhecidos são: O doce blues da salamandra (MXM, 2000); Ao longo da curva do rio (Cone Sul, 2001); Um certo rumor de asas (Nova Prova, 2003); Helena Gold (Geração Editorial, 2003); Dentro da chuva amarela (Geração Editorial, 2006) e O Ciclista (Autêntica, 2008). Em 2000, começou a escrever para crianças o seu livro Para que serve um amigo? (Becca, 2000), o qual também foi premiado pela União Brasileira de Escritores e adotado pelo Governo do Estado de São Paulo para distribuição em escolas.

A partir daí, já escreveu e ilustrou mais de uma dúzia de livros para crianças. Conheci Walter quando, por acaso, consegui comprar Helena Gold nas Lojas Americanas. Depois de ser tomado por sua literatura, telefonei-lhe e, desde então, vez ou outra fazemos algum contato. Apesar de ser muito tímido, o que prova que, embora seja um grande escritor, continua sendo um homem simples que não tem nenhuma intenção de ser maior que sua obra. E é justamente sobre isso que falamos nesta entrevista.

DOMINGO – Você já ganhou mais de 100 prêmios literários e acaba de ser agraciado com o Prêmio Pernambuco de Literatura. Qual o segredo para se tornar um dos escritores mais premiados do Brasil?
WALTER M. S. – Antes de tudo é preciso dizer que 100 por cento desses prêmios, como o Casa de Cultura Mário Quintana (RS), Fundação Cultural da Bahia, José Mindlin (MG), ou o recente Prêmio Pernambuco de Literatura, são resultados de concursos com uso de pseudônimo, onde apenas o texto aparece. Prêmios “a descoberto”, como o Jabuti, por exemplo, me são completamente estranhos; o que nos leva a uma conclusão óbvia: em certo sentido, Walther Moreira Santos nunca foi premiado e sim o que ele escreve.

Para alcançar tantos prêmios, sua literatura possui uma receita, como fazem os norte-americanos, ou é justamente o contrário?
Escrevo porque o livro me persegue, tentei fugir da Literatura a minha vida inteira; quando advogava, por exemplo, acabava rabiscando textos nas capas dos processos, nas filas do fórum. Então chegou um momento em que decidi dar uma chance à Literatura, e lá se vão 13 anos. (Se nada der certo, volto para o escritório.) Não conheço fórmulas. Em geral, esses livros produtos de fórmulas (a novela televisiva usa dos mesmos elementos) são bem sucedidos comercialmente, mas me parecem chatos e burros. Raramente eu leio algo da lista dos “Mais vendidos”.

Quando você ganhou seu primeiro prêmio e como chegou a isso? Sua literatura começa com os prêmios?
Qual o sentido de escrever quando tudo já foi escrito? Se você é um bom leitor de Guimarães Rosa, Dostoievski, Kafka, você se faz essa pergunta. O prêmio serve para avaliar se há algum tipo de verdade, de honestidade, em nossa obra. Tenho um conto premiado por um concurso do jornal O Escritor, em 1994. Mas conto minha carreira apenas a partir da publicação do meu primeiro livro Dentro da chuva amarela, pela Geração Editorial (SP), cuja primeira edição foi feita com pseudônimo de William L., um modo de homenagear o escritor americano William Burroughs, um divisor de águas em minha vida. Eu tinha 15 anos quando li “Almoço Nu” e foi quando decidi, quero fazer isto também.

Quando você acha que começou um livro e, sobretudo, quando você tem certeza que ele está pronto?
Antigamente eu tinha essa ansiedade de passar tudo para o papel, com o tempo, porém, aprendi a lidar melhor com essa ansiedade; hoje posso ficar anos gestando um romance, sem escrever uma única palavra. Levei os últimos 5 anos escrevendo os 14 contos do livro O METAL DE QUE SOMOS FEITOS, premiado recentemente. Talvez o livro nunca fique pronto. Eu nunca acho que está bom o suficiente… uma hora, porém, o editor se cansa de tantas revisões, então é preciso deixar que o processo tenha fim. Escrevo e reescrevo à exaustão, mas jamais li um livro meu depois de impresso.

Mesmo com mais de 100 prêmios, você ainda não é tão conhecido como são alguns dos escritores consagrados. Você mesmo fala isso em seu blog. Por que o Brasil ainda não fala seu nome na mesma dimensão de um Tezza ou um Noll?
O Tezza foi jurado quando premiaram meu romance O Ciclista com o Prêmio Cidade de Curitiba, e o Noll, mui gentilmente, escreveu na quarta-capa de O Ciclista: “Golpe certeiro, Walther Moreira Santos é um escritor de imaginação impar e recursos inesperados” – esses fatos muito me envaidecem. Mas é preciso bem dimensionar as coisas: o Tezza começou a escrever nos anos 70, e o Noll nos anos 80. Sem falar que, por morarem no Sul – onde há um intenso movimento em torno do Livro (haja vista a Feira do Livro de Porto Alegre, na 53ª edição), é natural que eles se projetem com muito mais facilidade. Com mais de 200 mil exemplares vendidos; mais de duas dezenas de títulos publicados pelas principais editoras do país e sendo agora traduzido para o alemão, eu não me queixo. Costumo dizer que o Livro é uma garrafa atirada ao mar do mundo, uma hora nossa mensagem chegará às mãos certas. Sou um autor do século XXI e este século está apenas começando.

Certa vez você me disse que a literatura vem e que, ao invés de ficá-la procurando, é melhor ir à praia, viver a vida e deixar que ela lhe encontre. É mesmo possível imaginar que a literatura pode acontecer de maneira natural?
O processo é diferente para cada um. Posso dizer que, quanto a mim, se o livro não me procurar, prefiro podar a grama.

Lourenço Mutarelli disse ter se fechado em um quarto por uma semana e só saído com a primeira versão de “O Cheiro do Ralo”, algo muito parecido com o processo criativo de Kafka em “A Metamorfose”. É possível pensar numa produção por inspiração ou tudo é iniciativa?
Minha querida Hilda Hilst costumava dizer que “o primeiro verso é dado”; acredito nisto; preciso que o sentimento de um conto, de um romance, se instale antes de escrevê-lo; sim, depois vem um processo de trabalho para que esse sentimento se traduza com perfeição.

Por falar em Lourenço Mutarelli, ele hoje é um escritor consagrado e até ator, mas foi, por muito tempo, um quadrinista sem sucesso, embora tenha um traço inigualável. Você também é ilustrador. Como é o mercado da ilustração no Brasil?
Costumo dizer que Ilustrar é um mondo de o autor em mim tirar férias – e tirar férias é muito bom! O mercado do ilustrador, do designer gráfico, é desigual: há quem ganhe o peso em ouro e há quem mal consiga pagar as contas; mas o que não é desigual no Brasil?

Depois da internet, muita gente se descobriu ou acha que se descobriu escritor. Quando isso acontece na vida da gente e, quando realmente devemos considerar os elogios feitos ao nosso trabalho?
Eu não consigo ler blogs, acho de uma chatice extrema, de modo que não publico ficção alguma em meus blogs; é preciso respeitar o texto: que exige o silêncio do livro impresso e não o ambiente disputado de mil coisas da tela do computador. Um blog serve muito bem para um aviso, uma nota. Para um bom texto de ficção a história é outra.

*(Texto originalmente publicado na revista Domingo, do Jornal de Fato: http://www.defato.com/noticias/18284/walter-moreira-santos)

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