Woody Allen nunca decepciona!

Andreia Braz
CrônicaMais

O coração tem razões que a própria razão desconhece. 

Blaise Pascal

Há dias em que as coisas não parecem fazer muito sentido e o desejo de não fazer nada nos domina por completo. Geralmente, costumo me sentir assim nos dias de TPM (a famosa tensão pré-menstrual).

Nesses dias, além da falta de vontade de sair, bate um desânimo repentino, e não é preciso nenhum acontecimento especial para que eu seja tomada por essa sensação de apatia, vazio.

As noites de sono também não costumam ser das melhores nesse período, o que me faz acordar com a sensação de não ter dormido, além do cansaço físico e da irritabilidade.

Uma noite mal dormida significa um dia seguinte geralmente improdutivo. Normalmente, durmo bem e costumo acordar motivada para o novo dia, mas durante a TPM é bem diferente.

E quando você está na TPM e acontece uma série de coisas para te deixar ainda mais irritada, impaciente e mal-humorada? Foi exatamente o que aconteceu um dia desses. Problemas com o computador, vazamento no chuveiro, internet lenta. E, para completar, uma decepção amorosa! Ou quase. Explico.

Um rapaz com quem eu achava que poderia ter alguma chance deixou bem claro que eu não passava de uma amiga. Conversamos por alguns meses pela internet, principalmente sobre literatura e cinema, e nossos papos me fizeram acreditar que poderia haver algo mais entre nós (troca de elogios, gostos em comum, planos de viagem).

No entanto, após o primeiro encontro presencial, descobri que seríamos apenas bons amigos. Senti isso logo de cara. Nenhum gesto carinhoso ou frase que pudesse denotar o interesse supostamente demonstrado em nossas conversas virtuais.

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“Voltei a me exercitar há cerca de um mês e tenho sentido os resultados da prática, a perda de peso foi um deles”

Depois do café e da caminhada, um filme

Mesmo assim, continuei acreditando que poderia haver alguma chance à medida que fôssemos nos conhecendo melhor. De todo modo, estava feliz por ter a amizade dele. Que a vida seguisse seu curso.

No entanto, coisas boas estavam por acontecer naquele dia. Primeiro, o convite de um amigo para almoçar, programação que se estendeu por um pedaço da tarde, com direito a café, sorvete e uma conversa muito agradável.

Depois, outra agradável surpresa: a visita de uma amiga que está apaixonada e veio me contar os encantos de início de namoro. Quando ela foi embora, jantei e saí para fazer minha caminhada noturna.

Voltei a me exercitar há cerca de um mês e tenho sentido os resultados da prática, a perda de peso foi um deles. Além disso, me sinto mais disposta para as atividades do dia a dia.

Ao voltar da caminhada, decidi que assistiria a um filme. Na manhã seguinte, retomaria os trabalhos. Afinal, não tinha nada urgente a fazer naquele dia. Havia concluído a revisão de dois livros naquela semana e os novos trabalhos poderiam esperar.

Trabalhar em casa tem lá suas vantagens, e poder organizar horários é uma delas; o segredo é administrar o tempo e ter disciplina. Inicialmente, havia pensado em ver um romance (“Apenas uma vez”), mas mudei de ideia ao lembrar de um box de Woody Allen que ganhara de presente de Natal e ainda estava intacto (“Blue Jasmine”, “Magia ao luar” e “Vicky Cristina Barcelona”). Afinal, Woody Allen nunca decepciona. Escolhi “Vicky Cristina Barcelona” (Espanha, EUA, 2008).

Vicky Cristina Barcelona

O filme narra as aventuras de verão de duas jovens estadunidenses: Vicky (Rebecca Hall) e Cristina (Scarlett Johansson) na cidade de Barcelona, onde conhecem Juan Antonio (Javier Bardem), um artista sedutor que as envolve num emaranhado de novos sentimentos e, de algum modo, as leva a refletir sobre escolhas e posturas perante questões cruciais.

Logo que chegam a Barcelona, Vicky e Cristina vão a uma exposição de arte onde conhecem Juan Antonio, que as convida para ir até Oviedo, degustar um vinho e fazer sexo. Tudo isso temperado com a relação tempestuosa e passional que o pintor mantém com a ex-mulher, a artista Maria Elena (Penélope Cruz).

“Vick Cristina Barcelona” é um hino à vida, que, apesar de tudo, é fascinante e pode reservar gratas surpresas. É também hino à alegria, à amizade, à arte.

E por falar em arte, não podemos esquecer a referência ao arquiteto Antoni Gaudí e ao pintor surrealista Joan Miró, dois grandes nomes da cultura espanhola lembrados no filme de Woody Allen. Em meio ao som das guitarras espanholas e à degustação de vinhos, os personagens vivem seus dramas e processos de autodescoberta.

Segundo o crítico de cinema Luiz Santiago (do site “Plano Crítico”), “O filme é uma obra de cunho romântico, artístico e também social, feita para olhar alguns momentos da vida como um passo para o flerte, o encontro e o desencontro entre amantes. Um pouco da história de nossas vidas, enfim”.

Terminado o filme, ainda fiquei acordada por um bom tempo, refletindo sobre questões que me afligiam naquele momento (a estabilidade financeira era a mais inquietante).

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Woody Allen lançou o filme “Vicky Cristina Barcelona” em 2008; a narrativa traz as aventuras de verão de duas jovens estadunidenses (Vicky, interpretada por Rebecca, e Cristina, por Scarlett Johansson) na cidade catalã, onde conhecem um artista sedutor (Juan Antonio, papel de Javier Bardem) que as envolve num emaranhado de novos sentimentos e as leva a refletir sobre questões cruciais.

Woody Allen me fortaleceu

Percebi, entre outras coisas, que não há nada de errado em ficar confusa de vez em quando, sem saber qual caminho seguir, ou apreensiva em relação ao futuro. E quantas vezes não pensei em como seria o futuro do ponto de vista profissional/financeiro! Afinal, faço parte do grupo dos profissionais liberais e por isso a incerteza é uma constante.

Do mesmo modo, também não há nada de errado em sentir carência/vulnerabilidade e desejar ter alguém para partilhar dificuldades e conquistas. Isso não nos diminui.

Sei que precisamos ser autônomos e responsáveis por nós mesmos, mas ter com quem dividir alegrias e agruras, é algo que traz certa sensação de segurança, de que atravessaremos as adversidades mais confiantes e fortalecidos.

Depois de tantas reflexões, fui dormir em paz e cheia de planos para o dia seguinte: concluir a revisão de um livro de crônicas, iniciar a revisão de uma tese, visitar minha mãe, marcar um encontro com um amigo no fim de semana.

Estava me sentindo mais tranquila e segura em relação ao futuro, graças às lições aprendidas com o mestre Woody Allen em “Vicky Cristina Barcelona”.

As incertezas relativas à questão da estabilidade financeira, por exemplo, parecem ter dado lugar a uma certa calmaria e à certeza de que tudo seria resolvido da melhor forma possível.

O que eu precisava era continuar fazendo a minha parte e sendo uma profissional dedicada, ética e responsável. O mais, viria a seu tempo.

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Andreia Braz

Comentários

5 comments

  1. Claudio Wagner da Silva 18 maio, 2018 at 13:50

    Assisti esse filme no ano do lançamento, e é realmente linda a história e você ainda conseguiu deixa-la melhor em seu belo texto. Parabéns

  2. Soraia Evangelista 17 setembro, 2018 at 23:43

    Como é gostoso nos identificarmos com um texto tão bem escrito! Aí acreditamos que nosso dia a dia pode se tornar uma grande obra de arte!

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