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Xenofobia e o extremismo formam combinação catastrófica

Por HusseinKalout
FOLHA DE SÃO PAULO

RESUMO Cientista político volta às contribuições do mundo islâmico ao Ocidente para pensar uma relação que se torna especialmente problemática desde finais do século 19. Políticas de segurança e ações de inteligência serão insuficientes para conter o monstro incubado na marginalização e no preconceito.

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A religião islâmica poderia ser descrita sob vários aspectos. Pode-se considerar o islã como religião da paz, da tolerância e do convívio civilizatório. Assim como nos alicerces das demais religiões monoteístas, o sacro direito à vida e o inalienável direito de livre expressão estão nele intrinsecamente consagrados.

Lamentavelmente, o islã tem sido surrupiado pelos mercadores da religião como se fossem donos de suas doutrinas ou até jurisconsultos de seus pilares. O radicalismo e o extremismo no islamismo têm suas raízes vinculadas a uma gama de fatores, mas, em alguns casos, à ignorância, ao oportunismo político e à marginalização deliberada.

É importante compreender que o extremismo religioso atinge, antes de qualquer outro arcabouço social, o próprio sistema sócio-organizacional muçulmano. O colapso de algumas estruturas sociais decorre mais de fatores político-culturais do que, predominantemente, de temas religiosos. Os confrontos no mundo muçulmano, em seu modelo e conotação atuais, são topologias novas.
De maneira geral, os Estados teocráticos abominam a formação de forças políticas no âmbito do islã por entender que podem tirar a capacidade desses países de atuarem como regentes do sistema político.

Mas a compreensão de fenômenos como radicalismo religioso ou o uso da violência em nome da religião requer sofisticado manuseio de ideias. Seria mais valoroso, nesse sentido, se debruçar sobre o axioma de causa e efeito da islamofobia do que, simplesmente, tapar os olhos e acreditar no ódio deliberado de muçulmanos contra o mundo liberal ocidental.

Dissipar dos anais do saber a contribuição civilizatória dos mundos árabe e muçulmano ao progresso alcançado pelo Ocidente, a partir de sua plataforma de conhecimentos (como Edward Said aponta em sua imortal obra “Orientalismo”), seria no mínimo renegar a historiografia.

Entre os séculos 7 e 15, a civilização muçulmana forjou importantes legados não apenas para o desenvolvimento do sistema econômico-comercial, mas, sobretudo, para o avanço científico nas sociedades europeias. Aquele período representou o apogeu da integração e do intercâmbio de conhecimento entre o mundo ocidental e o mundo islâmico -e ajudou a conduzir a humanidade a um patamar superior de progresso.
Ao longo da história, a contribuição da civilização islâmica ao mundo ocidental e, particularmente, à Europa, foi mais construtiva do que o contrário. Lembremos de “O Cânone da Medicina” do médico, físico e filósofo muçulmano-persa Ibn Sina (Avicena, como seu nome foi latinizado), que influenciou as universidades da Europa medieval e o pensamento de Tomás de Aquino. Incluamos o legado do sociólogo e filósofo árabe-muçulmano magrebino Ibn Khaldun, deixado em seu tratado “Muqaddimah” como parâmetro da dialética entre o homem, a ciência e a religião, que posteriormente serviu como força propulsora para a construção do pensamento ocidental no campo da inovação historiográfica, das relações humanas e da organização social. Indicações históricas sugerem que seus manuscritos chegaram a Maquiavel, Hobbes, Rousseau, Comte, Marx, Durkheim, Weber e Darwin.

Nesse sentido, faz-se necessário refletir acerca dos elementos que têm obstruído os canais de diálogo entre o Ocidente e o islã. Auferir legitimidade à teoria Huntingtoniana de choque civilizatório seria obtuso. O período que se estende dos finais do século 19 a meados do século 20 marca o declínio do diálogo entre o Ocidente e o mundo muçulmano.

Tal conjuntura pode ser descrita à luz de três questões importantes: o colonialismo europeu no mundo árabe e islâmico; o alinhamento euro-americano ao Estado de Israel no conflito com os palestinos; e mais recentemente as guerra ao Iraque, Afeganistão, Líbia e Síria.

Persiste ainda, em parte do pensamento das sociedades árabes e islâmicas, a malévola experiência do colonialismo europeu. Fixou-se naqueles países a percepção de que as forças coloniais europeias não apenas buscavam retirar-lhes as riquezas, mas, sobretudo, descaracterizar seus pilares culturais, sua autodeterminação, seus costumes e sua organização social.

Na psique coletiva do islamismo, as potências ocidentais não compreenderam a pluralidade do islã e ignoraram a sua dinâmica, uma vez que, pela força, procuraram impor modelos de governança política incompatíveis com as tradições culturais e sociais.

Desde os tempos do colonialismo, o modelo euro-americanista de intervenção, instrumentalizado por estratégias diplomáticas mal dimensionadas, segue o seu vício repetitivo. Do passado ao presente e do tratado Sykes-Picot à Conferência de Genebra, as potências ocidentais não lograram êxito em reduzir sua interferência. O resultado de tais políticas culminou na desconfiguração territorial, no sectarismo, na fragmentação nacionalista, na implantação de modelos de governança em benefício de um determinado grupo étnico e na alteração do equilíbrio social e político.

Afinal, o que potencializou o surgimento do islamismo radical? Alguns elementos despontam numa extensa lista de fatores. Por um lado a rejeição aos valores culturais e religiosos, o intervencionismo euro-americano e a injustiça que circunda o colonialismo israelense sobre a questão palestina. Por outro, a incapacidade da sociedade islâmica e de sua força de mobilização social de lidar com as correntes radicais ou Estados teocráticos que querem a manutenção do “status quo”.

Os primeiros fatores fomentaram a criação de guerrilhas fundamentalistas e de movimentos extremistas antiocidentais. Os demais fabricaram do salafismo a aberrações como as organizações criminosas terroristas Estado Islâmico. Esses bárbaros se estruturaram, diga-se, com o apoio de países árabes, muçulmanos e ocidentais.

A violência no Iraque, por exemplo, está mais ligada, em certa medida, a descontentamentos na distribuição política do poder do que a fatores de cunho estritamente sectário. A falta de coesão abre espaço para que organizações como Jabhat al-Nusra, Isis, Fronte Islâmico ou Jund al-Sham se estabeleçam em territórios onde o Estado é letárgico e as instituições democráticas são disfuncionais ou inexistentes.

Apesar de pertencer à orientação do secto sunita, o Estado Islâmico não poupa de seus massacres os próprios sunitas, além de outras correntes de minorias étnicas ou religiosas como sufis, yazidis, xiitas e assírios cristãos. Mesmo em países de religiosidade homogênea, como a Líbia (majoritariamente sunita), o extremismo exerce função de coerção com objetivos vinculados ao exercício do poder. A proliferação de inúmeros grupos terroristas na Líbia, hoje, possui uma relação custo-benefício atrelada à abundância de recursos energéticos e à prática do crime organizado como atividade econômica rentável.

É imperativo compreender o islamismo sob o prisma de sua pluralidade. Se analisarmos, por exemplo, as agremiações denominadas “grupos de pressão” veremos que existem três categorias: fraternidades político-religiosas; movimentos de resistência nacionalista de vertente religiosa; e grupos criminosos e anárquicos que praticam o terrorismo.

Após o massacre contra o “Charlie Hebdo”, a França e a Europa perceberam que o monstro não estava apenas fora. O monstro estava incubado, em casa. E não há soluções mágicas ou eficazes para essa chaga. É necessário antes de tudo redimensionar as relações entre governos e as populações minoritárias. Há que se construir pontes de diálogo e de compreensão mútua, com políticas públicas para reduzir a marginalização, a exclusão e a xenofobia contra os que professam a fé islâmica -ou quaisquer outras.

EM CASA

Sob nenhuma circunstância pode-se justificar o atentado ao “Charlie Hebdo” e a liberdade de expressão jamais deve se render aos desígnios de terroristas e extremistas. O episódio, no entanto, sugere reflexões.

Em estado de inércia, a Europa parece ter aguardado ser sacudida para que a consternação viesse a se esboçar na face de sua sociedade. Não se pensou, de certo, que ao empurrar propositalmente ou facilitar a saída de jovens europeus, muçulmanos ou não, para fora de seu espaço geográfico para lutarem na Síria ou no Iraque, sua desastrada política resultaria numa incomensurável tragédia.

Autoridades de diversos países acreditavam que estavam expelindo indivíduos parasitários dispostos à morte e que não sobreviveriam ou não retornariam.

Sem o fim da marginalização, da exclusão social e da discriminação que tem se voltado contra populações que professam a fé muçulmana, e sem um engajamento coletivo com líderes civis e religiosos dessas comunidades -para recuperar a confiança e sensibilizar a juventude- não será possível lograr êxito. É forçoso reconhecer que não bastam os órgãos de inteligência e segurança para impedir que tragédias como “Charlie Hebdo” se repitam.

A francesa Jocelyne Cesari -professora em Harvard e autora da obra “Why the West Fears Islam” (Por que o Ocidente teme o islã) -chama a atenção para paulatina fuga dos governos ocidentais ao diálogo sócio-religioso com a comunidade islâmica. Já o ugandês Mahmood Mamdani -professor da Universidade Columbia e autor do livro “Good Muslims, Bad Muslims: America, the Cold War, and the Roots of Terror” (Bons muçulmanos, maus muçulmanos: América, Guerra Fria e as raízes do terror)- destaca a noção de que o islamismo é dividido em variadas escalas de crentes, de diversas classes sociais e de múltiplas facetas culturais. O radicalismo pode estar em qualquer estamento. O fundamental nessa classificação é despertar um olhar que evite julgar coletivamente uma religião e depure a gênese do problema.

A pior forma de discriminação é a do tipo inconsciente. A redução do abismo vigente e a latente islamofobia na Europa não podem depender do beneplácito de arredios ultranacionalistas, que só conseguem ver nos imigrantes ou concidadãos de fés diversas um fardo ou uma constante ameaça terrorista. É preciso investir numa reeducação social capaz de reduzir essas assimetrias.

Já aos governos dos países muçulmanos recai a responsabilidade pela expansão do extremismo. O Oriente Médio vive uma guerra fria entre dois projetos de governança político-islâmica antagônicos e com pretensão hegemônica na região. Apesar de representarem duas tendências distintas no âmbito do islamismo, o entrechoque entre sauditas e iranianos emana mais da aspiração geopolítica do que propriamente da interpretação dos cânones religiosos.

Enquanto a população não for a plenipotenciária de seu destino político, a corrupção, a manipulação e a ausência de direitos e liberdades seguirão criando barreiras para a compreensão de outras sociedades. Cabe à sociedade muçulmana, mais do que a qualquer outra, confrontar o radicalismo e o extremismo daqueles que buscam manchar a essência de sua religião.

É tempo de compreender que a xenofobia europeia e o extremismo islâmico constituem uma combinação catastrófica.

 

HUSSEIN KALOUT, 38, cientista político brasileiro, coordena pesquisa sobre política exterior do Brasil na Universidade Harvard.

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Tácito Costa

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