Yin e Yang

A rainha, antes de suicidar-se, declara: “Minha Resolução já foi tomada e nada mais tenho de mulher em mim. Agora, da cabeça aos pés, estou firme como mármore. Agora a inconstante lua não é mais o meu planeta.” Nesse instante, na peça “Antonio e Cleópatra”, de Shakespeare, entram um guarda e um campônio trazendo uma cesta.

Na cesta há a víbora venenosa que a rainha Cleópatra encosta no próprio seio, deixando-se picar. A história de Cleópatra é por demais conhecida pela humanidade desde o antigamente. Ela foi a rainha egípcia que seduziu Júlio César e Marco Antonio, porém quando o imperador Augusto tomou o poder, Roma finalmente subjugou o Egito.

Sedutora, sim, mas nas cenas finais da peça de Shakespeare, ele optou por enaltecer outra característica de Cleópatra: a firmeza, a qual enfatiza como característica masculina: “nada tenho de mulher em mim”. No entanto, a morte mesma é mais doce e feminina: a serpente lhe suga o seio, como uma criança à busca de leite.

Eu sempre amei essa cena. Se Cleópatra já era um dos meus ídolos mais queridos, quando li a peça de Shakespeare, aí então se agigantou, pondo manto e coroa para morrer e juntar-se a Antonio, o amado morto. Além de manto e coroa, muniu-se de coragem. Coragem não era coisa de mulher. Firmeza era para machos, seres viris. Tão encantada fiquei com a peça, que repeti a idéia em um poema, sobre uma mulher que buscava a virilidade perdida. No poema, é verdade, havia um tanto de ironia, mas só um tanto.

Gosto de ironia, mas é bom ser irônica com a própria ironia, de vez em quando. De sarcasmo nunca gostei e o que dele aprendi foi só para me proteger. Não gosto de coisas cortantes, não gosto de coisas que machucam. Quando sou sarcástica (isso é raro) talvez seja o único momento em que se pode afirmar com certeza que estou de máscara. Máscara de homem, talvez.

Mas de ironia, gosto. E de coragem, também gosto, vivo chamando por ela. Se preciso chamá-la, invocá-la, é porque deve ser coisa masculina mesmo. Eu bem queria era não precisar dela, estar tranqüila eternamente, deitada em “berço esplêndido”, não precisar abrir picadas, ficar quietinha, em puro estado de hibernação, mas para viver é preciso coragem. “Arrumar a mala do ser”, tem de haver coragem para isso. Até para desistir, arre!

Nem a virilidade tem as respostas que busco. Perdi a conta de quantas vezes a tive e perdi, mas de uma coisa sei: nunca “a inconstante lua” ia deixar de ser “o meu planeta”.

Com quantos paus se faz uma jangada? Precisa coragem para aprender. Isso meu bisavô Joaquim sabia, esse era destemido. Mas a coragem dele vinha da sede de liberdade, igualdade, fraternidade, essas coisas todas femininas que, no entanto, inundavam a alma do vô, como lhe inundava também o mar infindo, ao qual se lançou um dia, por um ideal.

Eu fui aprendendo a fazer jangadas. Algumas para navegar em praias rentes à costa, outras para me lançar em mares abertos e ficar dias e noites. Às vezes naufraguei, às vezes voltei com salvo-condutos de mim mesma. Sempre me alforriaram os mares revoltos, como baías nunca fizeram.

Poeta e cronista. Publicou os livros de poesia O Caos no Corpo, Destempo, e Chuva Ácida, e Uma noite entre mil, textos em prosa. [ Ver todos os artigos ]

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