Zé Celso brincou com fogo no Recife e se queimou

Por Ronaldo Correia de Brito
Terra Magazine

Fiquei mais de uma hora parado no trânsito, entre minha casa e o hospital onde trabalho há trinta e um anos. Antigamente, não gastava mais do que nove minutos nesse deslocamento. No tempo em que esperava, ouvi o cd do Kronos Quartet gravado na África e consegui não me estressar. Um ônibus com defeito ocupava uma das duas faixas da BR, causando o transtorno: quilômetros de automóveis. Quando ultrapassei o ponto de afunilamento, não vi guardas de trânsito, nem mecânicos, nem reboque. O ônibus de portas fechadas parecia um navio encalhado.

Adoro o quarteto de cordas norte-americano fundado por David Harrington, que já gravou com músicos de várias partes do mundo. O meu disco favorito é esse de música africana. Sempre que o escuto sinto vontade de sair dançando. Enquanto não tinha o que fazer, pensei em abrir as portas do carro e dançar no gramado lateral à pista. No máximo me achariam maluco ou quebraria o pé num buraco ou seria assaltado por alguém das favelas em volta da BR.

Quando comecei a trabalhar no hospital, em 1979, não existiam favelas contornando a pista. A paisagem era de charcos e córregos, restos de mata atlântica e areais. Ainda soprava uma brisa marinha e o Recife tinha temperaturas máximas de 28 graus. À noite escutavam-se os sapos e as rãs cantando, e no escuro os vaga-lumes acendiam as luzinhas fosforescentes. Parece bucólico e saudosista, um libelo contra os avanços da urbanização. Mas não houve urbanização, e sim favelização. Os restos rurais de uma cidade complexa como é o Recife transformaram-se em subúrbio degradado e violento.

E se eu decidisse sair do meu carro e dançar a música do Kronos Quartet? Recife é uma cidade dançante, onde se dança por quase tudo ou nada. Proliferam maracatus rurais e de baque virado, orquestras de frevo, troças, bois e cavalos-marinhos. O aparente caos musical possui sua ordem, que apenas no carnaval aparentemente se quebra. Existe ordem até mesmo na desordem e a minha dança pareceria fora dos padrões.

Quem andou provando os efeitos de mexer nessa desordem foi José Celso Martinez Corrêa e o seu grupo de teatro Uzyna Uzona. Instalado no bairro de Peixinhos, na periferia do Recife, num antigo matadouro de gado rebatizado por nascedouro, Zé Celso trouxe as Dionisíacas, quatro peças do seu teatro orgiástico e caótico, sendo as mais conhecidas As Bacantes e O Banquete.

Zé Celso e o grupo transitaram da representação à provocação e ao escândalo, no meio de pessoas acostumadas à vida marginal, às transgressões, ao sexo fácil, à violência e às drogas. O que poderia ser redenção e catarse pelo teatro, quase se transforma em tumulto. O Deus Dioniso não perdoa os que não lhe rendem tributo, vira as costas aos que recusam a embriaguez e o transe, incita ao caos e não teme o dilaceramento e a morte.

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